Praticando a consistência
Quase sempre, quando iniciamos algo novo em nossas vidas, é normal surgir o questionamento: “até quando faremos isso?”. Em outros casos, simplesmente, vamos vivendo e deixando o fluxo da vida nos levar. De uma forma geral, especialmente quando somos jovens, nossos níveis de empolgação com as novidades são bem maiores, pois há aquela sede de descobrir tudo que o mundo oferece. Nos deparamos com isso inúmeras vezes ao longo de nossas vidas, porém com o tempo, essa “vontade” passa a ser cada vez menor, afinal ficamos mais experientes, e não nos surpreendemos tanto com as mudanças.
Certa vez, nas férias de inverno do ano de 2000, eu estava na casa de um primo e ele me apresentou um violão, mas de cara aquilo não me chamou atenção. Desde muito pequeno, sempre quis ser músico, porém baterista e talvez tenha sido por isso o meu desinteresse de imediato no violão. Por ironia do destino, e também pelo fato da música ser bastante presente na minha vida, por causa da minha família, depois de um pequeno tempo acabei desenvolvendo uma curiosidade naquele instrumento. Em dezembro daquele mesmo ano, comprei meu primeiro violão e acabei sentindo algo diferente de tudo que já tinha experimentado, pois não foi algo que apenas me empolgou momentaneamente e sim algo que iria mudar toda a minha vida. Em pouco tempo, ganhei minha primeira guitarra e, a partir desse momento, esse presente foi o grande divisor de águas na minha trajetória como músico. Com o passar dos anos, aquilo foi ficando mais forte, minha vida ganhava um sentido e o meu propósito era fazer aquilo o resto da vida. Depois disso, irremediavelmente, comecei a sentir a necessidade de ser visto, pois não queria ficar tocando só no meu quarto e ansiava que o mundo ouvisse minha música, mesmo sem saber como chegar lá.
É importante considerar que tive muito mais certeza da minha escolha quando subi nos primeiros palcos da vida, pois percebi que me enchia de orgulho dessa conquista, afinal, qual era o moleque que não queria ser ouvido por uma plateia? Como tudo na vida tem um preço, aquilo iria me custar muitas coisas e, sem saber, eu já estava disposto a pagar por tudo, como por exemplo: noites de sono perdidas, mais dedicação ao instrumento, me privar de sair com os amigos, pois, certamente, seria um estilo de vida um pouco mais egoísta, afinal o divertimento das pessoas era meu trabalho. Me lembro de um dos dias mais felizes da minha vida, que foi a primeira vez que subi em um grande palco. Nesse dia, olhei muito assustado para aquela multidão e me passou um filme do garoto no quarto com sua guitarra, desejando ser ouvido pelas pessoas. Eu sabia que tinha me preparado a vida toda e aquele momento havia chegado. E foi uma das melhores sensações da minha vida, pois aquele gosto de “sonho” era muito bom pra ser degustado só uma vez. Sem dúvidas, eu queria mais. E foi engraçado, porque iriamos dividir o palco com uma banda nacionalmente conhecida, tivemos muita sorte nesse dia e nossa felicidade no palco era tão contagiante que o publico e o contratante pediram bis do nosso show. Sim, tocamos duas vezes, antes e depois da banda principal e os músicos dessa banda acabaram assistindo nosso show do palco. Foi uma noite memorável para todos nós.
Desde então, dedico minha vida à música, porque através dela tive a oportunidade de tocar vários estilos diferentes, tocar até com ídolos, fazer vários amigos, conhecer minha companheira, que um dia já foi música também. Mas acima de tudo encontrei um propósito e, não falo isso pra ser clichê, mas creio que todo ser humano precisa de um ideal pra levantar-se todas as manhãs e se sentir motivado a enfrentar as dificuldades da vida. Sonhar é uma capacidade humana muito ímpar, pois qualquer um, de qualquer idade, cor e credo, sonha. É algo impossível de ser retirado de nós, pois onde estivermos, com quem estivermos, nos lembraremos dos nossos sonhos.
Nossa sociedade atual, infelizmente, nos tira um pouco dessa capacidade de sonhar. Se não tivermos uma constância de pensamentos somos engolidos por esse modo de vida. Onde o mundo está em contínua evolução, inúmeras “revoluções por minuto”, tudo mais volátil, onde nosso modo de vida é volúvel e a consistência é algo incomum, pois é mais fácil a praticidade e a tendência do fluxo do cotidiano, do que a busca por idealizações que fogem do comum.
E você, o que está fazendo da sua vida? Seguindo o fluxo ou fugindo do comum?
Comentários (0)
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro!